Li hoje esta pequena crónica no jornal e pensei que este sentimento reflete uma parte daquilo que o País está a fazer aos jovens de hoje e de amanhã.
"Lembro-me, quando era miúdo, de os meus pais me aconselharem a estudar,
independentemente daquilo que eu quisesse ser quando fosse “grande”. E tinham
bons argumentos para aquele conselho: “Olha que um canudo é um passaporte para
ter um emprego, independência e dinheiro no bolso.”
Quando terminei o ensino secundário, também a dedicada directora de turma que
tive quis dar um conselho à malta: “Vocês estudem, porque um canudo é um
passaporte para ter um emprego e a vossa independência.” Quando ouvi aquilo,
pareceu-me que ela se tinha esquecido de uma parte qualquer da frase, mas como a
senhora usava uma cana para apontar para os acetatos que passava no
retroprojector, achei melhor não questionar.
Anos mais tarde, já no ensino superior, um dos meus professores anunciou numa
aula, com grande pompa e circunstância: “Vocês estão no sítio certo. Estudem,
porque um canudo é um passaporte para ter emprego.” Algo começava a cheirar mal.
Parecia que, à medida que o tempo ia passando, aquele conselho perdia o brilho.
Mas bem, como o homem parecia estar certo do que estava a dizer resolvi seguir o
conselho. Por isso e por ele ter o dobro do meu tamanho. Aquele não precisava lá
de canas para se fazer entender. E a verdade é que, mesmo não tendo o brilho de
outros tempos, era um óptimo conselho. E se ninguém lhe mexesse mais, estava
óptimo.
Os anos foram passando e muitos jovens, como eu, foram tirando os seus cursos
superiores e entrando na vida activa. Continuava-se a acreditar que “… um canudo
é um passaporte para ter emprego.” Até que chegou a “crise” e o Governo começou
a cortar. Primeiro nos subsídios. Depois nos salários e nas pensões. Nem os
apoios sociais e os cuidados de saúde escaparam. Mas foi quando os cortes
chegaram às reformas dos políticos que me preparei para o pior.
E assim foi. Em vez de pararem com os cortes ou de cortarem nos provérbios ou
nas adivinhas, seguiram em frente e, sem dó nem piedade, cortaram nos conselhos.
E, mesmo assim, podiam perfeitamente ter cortado no “coma fruta cinco vezes ao
dia”, por exemplo. E ficava só “coma fruta cinco vezes.” A pessoa ficava a saber
que tinha que comer fruta e sem a obrigação e a despesa de ter que o fazer cinvo
vezes por dia. A mim dava-me imenso jeito.
Mas não foi nada disso que fizeram. Sem qualquer dó, cortaram no conselho que
norteou a vida de tantos filhos e pais neste país. E foi assim que de “estudem;
porque um canudo é um passaporte para ter emprego” ficámos com “estudem; porque
um canudo é um passaporte.”
E agora que o mal está feito, o Governo podia ser coerente com aquilo que fez
e ir até ao fim na sua política. Já que mexeu no conselho, devia mexer também
nas Universidades e nos Centros de Emprego. As Universidades deveriam ser
obrigadas a disponibilizar quais os destinos a que cada passaporte, perdão, cada
canudo dá direito. Sim, porque senão há o risco de quem ouvir “estuda, porque um
canudo é um passaporte” pensar que pode ir viajar para onde lhe apetece. Assim,
teríamos “Enfermagem – Reino Unido” ou “Engenharia Mecânica – Alemanha”.
Mas se o objectivo do Governo é mesmo poupar dinheiro, o mais prático seria
fundir os Centros de Emprego com a TAP. Assim, uma pessoa mal acabasse o curso,
pegava no certificado e ia directamente para o aeroporto. No check in, a
empregada passava o certificado no detector e informava o passageiro do seu
destino.
Parece que já estou a ver o estilo: “Engenharia Civil? Ainda dizem que está
mal! Tem Angola, Moçambique, Médio Oriente, Peru, Chile e até 2014 estamos com
uma promoção para o Brasil! Está interessado? Chegue-se aqui para o lado
enquanto pensa. Próóóóóóóóximo!”
(in Publico, P3, Tiago Leal)